segunda-feira, 23 de novembro de 2009

TEXTOS SOBRE TRABALHO

1. O trabalho na sociedade primitiva
Quando se fala em sociedades tribais é necessário esclarecer que elas não são todas iguais, ao contrário, se diferenciam tanto n tempo quanto no espaço. Assim, falar dos bosquímanos australianos antes do contato como os europeus é bem diferente de falar deles atualmente, pois as condições em que vivem hoje não têm nenhuma semelhança com aquelas anteriormente ao contato.
As sociedades tribais distribuídas pelos mais diferentes pontos da Terra e com as mais diferentes estruturas sociais, políticas e econômicas possuíam, e algumas ainda possuem, uma organização do trabalho baseada na divisão por sexo, em que mulheres e homens desempenham tarefas e atividades diferentes. Também os seus equipamentos e instrumentos de trabalho são, aos olhos dos estrangeiros, muitos simples e rudimentares – ainda que se mostrem eficazes para o que deles se exige. Guiados por tal concepção muitos analistas, durante muito tempo, classificaram essas sociedades como de economia de subsistência e de técnica rudimentar, passando a idéia de que esses povos viveriam quase em estado de pobreza, com o mínimo necessário à sua sobrevivência. Pode-se verificar a seguir que isso não passa de um preconceito muito difundido.
Marshall Sahlins, antropólogo norte-americano, chama essas sociedades de “sociedades do lazer”, ou as primeiras “sociedades da abundância”, pois, ao analisá-las, percebeu não só que ela tinham todas as suas necessidades materiais e sociais plenamente satisfeitas como, e além disso, tinham um mínimo de horas de atividades diárias vinculadas a produção (cerca de três ou quatro horas e nem sempre todos os dias). Os yanomamis dedicavam pouco mais de três horas às atividades produtivas diárias; os guayakis, cerca de cinco horas, mas não todos os dias.
O fato de se dedicar menos tempo às tarefas vinculadas à produção não significa, por outro lado, que se tenha uma vida de privações. Ao contrario, essas sociedades viviam muito bem alimentadas e isso fica comprovado nos relatos os mais diversos, que sempre demonstram a vitalidade de todos os seus membros. É claro que tais relatos referem-se à experiência que viviam antes do contato com o chamado “mundo civilizado”.
A explicação pra o fato de trabalharem muito menos que nós está no modo como se relacionam com a natureza, muito diferente do que temos. A terra é, além do lugar onde se vive, um valor cultural, pois é ela que dá aos homens os seus frutos, a floresta presenteia os caçadores com os animais de que necessitam para a sobrevivência. Não são os homens que produzem e caçam, pois eles simplesmente recebem o que necessitam da “mãe natureza”. Por outro lado, há um profundo conhecimento do meio em que vivem, o que faz com que conheçam as plantas, os animais, a forma como crescem e se reproduzem, o que é bom e o que é ruim para se alimentarem e quando podem utilizar certas plantas e determinados animais para sua alimentação, para cura ou para ritos.
O “mundo do trabalho” entre as sociedades tribais é, pois, algo que tem relação com todos os outros elementos de suas sociedades e com todo o meio ambiente em que vivem. Desse modo, nelas não vamos encontrar riquezas. A sua riqueza está na vida e na forma como passam os dias. As atividades vinculadas à produção limitam-se a conseguir os meios necessários à sobrevivência, mesmo assim são quase sempre desenvolvidas em conjunto com outras atividades. Enfim, há um continuo de atividades interligadas, que dificilmente podem ser explicadas e entendidas separadamente.
Quando os machados de pedra foram substituídos por ferramentas de ferro, entre os sianes da Nova Guiné, o que permitia diminuir o tempo de trabalho necessário para conseguir os alimentos indispensáveis à subsistência, eles não se preocuparam em produzir mais, mas simplesmente passaram a utilizar aquele tempo de que dispunham para se divertir e descansar, ou para outras atividades que lhes proporcionavam mais prazer.

2. O trabalho na sociedade Greco-romana
Os gregos faziam uma distinção clara entre o trabalho braçal de quem labuta na terra, o trabalho manual do artesão e aquela atividade do cidadão que discute e procura, através do debate resolver os problemas da sociedade. Conforme Hanna Arendt, pensadora alemã, os gregos possuíam três concepções para a idéia de trabalho: labor, poiesis, e práxis.
Por labor se entendia o esforço físico voltado para a sobrevivência do corpo, sendo, portanto, uma atividade passiva e submissa ao ritmo da natureza; o exemplo mais claro dessa atividade é o trabalho de quem cultiva a terra, pois ele depende sempre das variações do clima, das estações, ou seja, de forças que o homem não pode controlar. A mesma expressão é utilizada pra o momento em a mulher está em trabalho de parto.
Em poiesis a ênfase recai sobre o fazer. O ato de fabricar, de criar alguma coisa ou produto através do uso de algum instrumento ou mesmo das próprias mãos. O produto desse trabalho muitas vezes subsiste à vida de quem o fabrica, em um tempo de permanência maior que o de seu produtor. O trabalho do artesão, do escultor se enquadraria nessa concepção.
Práxis, por sua vez, é aquela atividade que tem a palavra como sue principal instrumento, isto é, que utiliza o discurso como um meio para encontrar soluções voltadas para o bem-estar dos cidadãos. É o espaço da política, da vida totalmente livre, uma vez que só se utilizamos objetos e as coisas produzidas pelos outros. A maior virtude consiste em utilizar bem as coisas, sem ter que transformá-las através do trabalho (no caso, através do labor ou da poiesis).
Nessas sociedades, o escravo é propriedade de seu senhor e, portanto pode ser vendido, doado, alugado; não só ele, mas todos os seus filhos e todos os bens que porventura possam ter. para os romanos ele era uma coisa (res), mas também uma pessoa, o que podia trazer alguns problemas. Assim, se um escravo cometesse algum crime, quem era responsabilizado era seu amo, por outro lado, se um escravo sofresse alguma ação que o prejudicasse para o trabalho, o seu senhor poderia se indenizado.
É importante deixar claro que havia uma classe de ricos e notáveis senhores que viviam de rendas e eram desobrigados de qualquer atividade que não fosse a arte de discutir assuntos da cidade e o bem-estar dos cidadãos. Por isso é que a escravidão nessas sociedades é fundamental, pois era o trabalho escravo que dava suporte material para que os cidadãos não precisassem viver do suor de seu rosto.

3. O trabalho na sociedade feudal
A propriedade feudal era constituída, no mínimo, de uma aldeia, das terras dos camponeses, das pastagens comuns, da igreja, da casa paroquial, das terras pertencentes a ela, da casa do senhor, que possuía o moinho o forno e o celeiro, bem como as melhores terras da propriedade. A produção nesse sistema tinha como base o trabalho na terra e esta se subdividia, basicamente, em três partes: uma para a plantação de outono, outra para a de primavera e uma outra para o pousio, isto é, uma porção, ou gleba de terra que ficava descansando, sem plantação. Dessa maneira, anualmente se fazia um rodízio entre as diversas glebas de terra, de tal maneira que sempre uma delas descansava enquanto as outras estavam produzindo de modo intercalar, ora com a plantação de outono, ora com a plantação de primavera.
Essa organização espacial de alguma forma já definida e ordenava o trabalho no interior da propriedade feudal. Os servos além de trabalharem em suas terras, eram também obrigados a trabalhar nas terras do senhor, bem como na construção e manutenção de estradas e pontes. Esta obrigação se chamava corvéia. Entretanto, havia uma série de outras obrigações que os servos deviam aos senhores, como, por exemplo, um imposto que se pagava por uma pessoa e atingia unicamente os servos. O censo era um outro imposto, mas esse era pago somente elos homens livres (camponeses e aldeãos). A talha era uma taxa que se pagava sobre tudo o que se produzia na terra e atingia todas as categorias dependentes. As banalidades consistiam em outra obrigação devida ao senhor e eram pagas pelos servos e camponeses, pelo uso do moinho, do forno dos tonéis de cerveja e pelo dato de, simplesmente, residirem na aldeia.
Como se pode perceber, eram os servos, os camponeses livres, os aldeãos, ou seja, as classes servis quem efetivamente trabalhava nessa sociedade. Os senhores feudais e o clero viviam, pois, do trabalho dos outros. Algo parecido com o que aconteci na sociedade Greco-romana.
Apesar de que o trabalho vinculado à terra ser o preponderante na sociedade feudal, isso não significa que outras formas de trabalho não existissem. Atividades artesanais nas cidades ou mesmo dentro do feudo e atividades comerciais nas cidades completam as outras formas de trabalho.
Segundo a concepção feudal, com base na Igreja Católica, o trabalho era uma verdadeira maldição e deveria acontecer somente na quantidade necessária à sobrevivência, não tendo nenhum valor em si mesmo. Como era a salvação individual o que importava, o trabalho era desqualificado, uma vez que não permitia a quem o executava uma constante meditação e contemplação – a forma de se chegar mais perto de Deus e, portanto, da salvação.

4. Trabalho, realização e alienação
Podemos definir trabalho como toda atividade pela qual o ser humano utiliza sua energia física e psíquica para satisfazer suas necessidades ou para atingir um determinado fim.
Por intermédio do trabalho, o homem acrescenta um “mundo novo” (a cultura) ao mundo natural já existente. O trabalho é, portanto, elemento essencial da relação dialética entre o homem e a natureza, entre o saber e o fazer, entre a teoria e a prática.
Nesse sentido, o trabalho é uma atividade tipicamente humana, porque implica a existência de um projeto mental que determina a ação a ser desenvolvida para se alcançar o objetivo almejado.
Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a construção das colméias pelas abelhas atinge tal perfeição que envergonha muitos arquitetos. Mas o que distingue o pior dos arquitetos da melhor das abelhas é que ele projeta mentalmente a construção antes de realizá-la.(MARX, Karl)
Quando pensamos sobre o papel do trabalho em seu aspecto individual, verificamos que ele permite ao homem expandir suas energias, desenvolver sua criatividade e realizar suas potencialidades. Pelo trabalho o homem é capaz de moldar e mudar a natureza e, ao mesmo tempo, alterar a si próprio. Ou seja, trabalhando o homem pode modificar o mundo e a si mesmo, produzir cultura e se autoproduzir.
Em seu aspecto social, isto é, como esforço conjunto dos membros de uma comunidade, o trabalho tem como objetivo último a manutenção da vida e o desenvolvimento da sociedade.
Assim, dentro dessa visão positiva e ideal, podemos concluir que o trabalho tem a função de promover a realização do indivíduo, a edificação da cultura e a solidariedade entre os homens.
Ocorre que, de categoria central da existência humana, o trabalho estaria perdendo seu poder irradiador de vida. Como isto aconteceu?
Ao longo da história, com o aparecimento da dominação de uma classe social sobre a outra, o trabalho foi desvirtuado de sua função positiva. Em vez de servir ao progresso de todos passou a ser utilizado para o enriquecimento de alguns. De ato de criação virou rotina de reprodução. De recompensa pela liberdade se transformou em castigo. Enfim, em vez de ato de realização, foi transformado em instrumento de alienação.
É interessante ressaltar que, Etimologicamente, o termo trabalho vem do latim tripalium, um instrumento de tortura feito de três paus. Na verdade, não há exagero em afirmar que, mesmo nos dias de hoje, o trabalho ainda é utilizado como instrumento de torturar e triturar o trabalhador.

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